Livre - Cheryl Strayed

"Eu percorreria aquela linha, decidi, pelo menos o máximo que conseguisse em cerca de cem dias. Estava morando sozinha em um estúdio em Mineápolis, separada do meu marido e trabalhando como garçonete, tão deprimida e confusa quanto jamais estive na vida. Todo dia me sentia como se estivesse no fundo do poço olhando para cima. Mas foi a partir daquele poço que comecei a me tornar uma aventureira solitária. E por que não? Já fui tantas coisas. Uma esposa apaixonada e adúltera. Uma filha querida que agora passava férias sozinha. Uma pessoa ambiciosa que está sempre se superando, uma aspirante a escritora que pulava de um emprego insignificante para outro enquanto flertava perigosamente com drogas e dormia com homens demais. Era a neta de um mineiro de carvão da Pensilvânia, a filha de um metalúrgico que virou vendedor. Após meus pais se separarem, morei com minha mãe, meu irmão e minha irmã em um conjunto habitacional cheio de mães solteiras e seus filhos. Quando adolescente, morei no estilo de-volta-à-natureza nas florestas do norte de Minnesota, em uma casa que só tinha banheiro do lado de fora, não tinha eletricidade nem água encanada. Apesar disso, virei líder de torcida no ensino médio e rainha do baile no colégio, depois fui para a faculdade e virei uma feminista radical de esquerda.
Mas uma mulher que caminha sozinha 1.770 quilômetros por regiões desabitadas? Nunca tinha sido nada parecido com isso antes. Não tinha nada a perder tentando."





Já comentei aqui como eu sou apaixonada por livros que trazem histórias reais ou que são baseados nela. Quando comprei Livre não sabia. Foi uma compra por impulso ao visitar uma livraria, e já faz um tempinho, mas só agora tive a chance de ler.

Ultimamente tenho lido os livros certos nos momentos certos da fase em que me encontro, e com Livre não foi diferente. Pensei que teria dificuldades para ler, sabia que o livro seria pesado, e preferia uma leitura mais leve, mas estou seguindo minha ordem de leitura e não quis pular. Cheguei ao final do livro agora, com o sentimento de que fiz a escolha certa em não ter pulado a vez dele e me sentindo mais leve. Ahh, e MORRENDO de vontade de fazer a PCT ou algo parecido.

Livre me lembra de Comer, Rezar, Amar. Outro livro maravilhoso que li e indico fortemente. Sabia que iria gostar dele desde o começo, e foi assim mesmo.

Cheryl se encontra no fundo do poço depois que sua mãe morreu. Ainda sem querer aceitar a morte dela, começa a despedaçar a própria vida, sendo infiel, viajando pelo caminho das drogas, dormindo com mais caras do que é possível contar. Mas como diz aquele aquela frase: se existe uma vantagem em estar no fundo do poço é saber que não se pode afundar mais. Até que um dia, ela vê um folheto sobre a PCT e um tempo depois decide que é isso que vai fazer.

Sem planejar bem, juntando uma quantia de dinheiro que julgava ser necessária, e com uma mochila espantadoramente grande e pesada, ela vai rumo à sua caminhada pela Pacific Crest Trail, onde espera se reencontrar. Acaba descobrindo nas primeiras semanas o quão despreparada ela realmente está, mas continua bravamente até o fim.

Cheryl nos relata a história de uma mulher guerreira, que enfrentou o medo, a inexperiência, a privação, a solidão, as próprias dificuldades da trilha, e que continuou sempre em frente. Uma mulher que pensou em desistir, que decidiu desistir, que teve a desculpa perfeita para desistir, mas que no final de tudo, decidiu continuar em frente.

Livre é um livro que te fazer carregar a Monstra juntamente com Cheryl durante as longas páginas do livro. Que te faz querer chegar ao final, mas sem pressa, saboreando os relatos da viagem, assim como ela saboreou as paisagens enquanto percorria a trilha. Livre me mostrou que ainda existem pessoas generosas no mundo, e que estão dispostas a ajudar aos outros sem pedir nada em troca, embora algumas tenham segundas intenções.

O livro é recomendado para quem precisa se reencontrar, para que já se achou e até mesmo para quem nunca se perdeu. Uma história de superação, de ser guerreira, de recomeçar e de se redescobrir. Uma história incrível e inspiradora. Vale muito a pena conhecer.

A edição está linda, tanto o livro com a capa do filme, quanto a capa original são lindos, não teve erros gramaticais, e a organização está ótima. Editora Objetiva está mais uma vez de parabéns pela bela obra em seu catálogo.


Quotes:


Tratava-se de um mundo em que eu nunca tinha estado e que não conhecia, mas, ainda assim, durante todo o tempo, sabia que estava lá, um mundo no qual eu oscilava entre sofrimento, confusão, medo e esperança. Um mundo que eu achava que podia me transformar tanto na mulher que sabia que poderia vir a ser como na menina que já fui um dia.
Eram coisas que eu conhecia e com as quais poderia contar, coisas que me ajudariam a seguir em frente.
Olhei para o norte, em sua direção, a simples lembrança dessa ponte foi como um sinal. Olhei para o sul, de onde vim, para a vastidão de terra que me ensinou e castigou, e considerei as opções. Havia apenas uma, eu sabia. Sempre havia apenas uma. Continuar andando. 
Só sabia que era hora de ir, então abri a porta e caminhei em direção à luz.
Foi isso que os incentivou a lutar pela trilha contra todas as adversidades, e foi o que me incentivou e a todos os trilheiros a seguir em frente nos dias difíceis.
Não estava chorando porque estava feliz. Não estava chorando porque estava triste. Não estava chorando por causa de minha mãe ou de meu pai ou de Paul. Estava chorando porque estava plena.



Título: Livre
Autor: Cheryl Strayed
Páginas: 375
Editora: Objetiva
ISBN: 9788539006458
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